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Ajuda Humanitária Integral

Publicado em 21/08/2017

 

Mara Narciso

 

Ninguém entende o motivo de alguém agir assim. Despir-se de si mesma, largar o nome, a casa, o meio social e familiar, criar uma irmandade, mudar-se para perto dos paupérrimos, abraçar uma causa honrosa, agir, ser eficaz, e ainda assim, insatisfeita, sair mundo afora. A intenção é encontrar e trabalhar com os povos mais primitivos e pobres da face da Terra.

Depois de trabalhar com famílias que viviam no lixão de Montes Claros, Irmã Raimunda Dorilene Pereira, paraense, parte novamente para a Guiné Bissau, onde já viveu por três anos. Desta vez ficará por mais dois anos. Precisa retornar porque lá deixou pessoas que urgem pela sua ajuda humanitária. É gente que nada possui: nem terra, nem água, nem comida. Está sob três jugos: Governo autoritário, milícias e crenças ancestrais, que são seguidos rigorosamente, sem nenhum questionamento. Nem poderia.

A Mãe África é pródiga em dialetos e mitos. As tribos desse ponto do planeta mal se comunicam entre si. A língua oficial é o Português, falado por 27% da população. A maioria fala o kriol, um dialeto. Não há trabalho nem posses. O estado de miserabilidade das comunidades é de fazer chorar. Mas não há lágrimas. A população vive trespassada. Há o Exército, cuja cúpula manda no país - que já assassinou alguns presidentes-, os rebeldes e as vítimas. A selvageria da violência é assustadora, numa nação que viveu uma guerra civil e pelotões de fuzilamento.

As freiras fazem um trabalho social e de evangelização. Cerca de 90% da população professa um sincretismo entre o islamismo e o animismo (seres não humanos têm espírito), e os restantes são cristãos. Cada tribo tem uma linguagem, uma crença, um medo, mas todos têm a necessidade universal de comer. Mas o quê?

O país não tem indústria, nem trabalho e nem comida para a maior parcela da população. Quando chove (julho e agosto), todos se envolvem com o plantio de arroz. As pessoas somem para a roça. Quando conseguem colher, passam alguns meses tendo comida: arroz.

O governo proibiu a mutilação genital feminina, há anos, mas o costume da amputação persiste. As mães e avós incentivam a prática por vê-la associada à felicidade e à honra femininas. O corte do clitóris, e em algumas tribos, também dos pequenos e grandes lábios genitais, sem anestesia nem higiene alguma, cortando-se e costurando-se de qualquer maneira, leva muitas meninas à morte e algumas mulheres a imensas hemorragias no parto, ocasião em que a genitália se rompe.

Os homens também são submetidos a um rito de passagem semelhante à circuncisão. Os jovens do sexo masculino são levados a savana e passam por toda sorte de provações, nas quais alguns morrem.

Após o parto, o marido bebe o primeiro leite, o colostro. Caso o homem esteja ausente, é preciso esperá-lo chegar e se não chega, a mãe não alimenta seu filho, deixando-o morrer. Acredita que fazendo isso os maus espíritos não se apoderam da família para fazer-lhe mal, e sim, a protege. Não vê a perda do filho como uma tragédia, mas como um mal menor.

A criança não tem valor algum na sociedade daquela parte do país. Quando há comida, o homem se alimenta e o que sobra a mulher pode comer. Às crianças só restam migalhas. São corriqueiras as mortes por fome, especialmente de crianças.

Não há água e nem noção do que seja higiene e a AIDS está matando seres humanos como moscas. Quando a pessoa consegue algum dinheiro, naturalmente o coloca na boca. O choque cultural é tão chocante, que as catequistas brasileiras sentem-se apavoradas e até adoecem, não conseguindo permanecer em seu trabalho social. Já houve caso de perda do juízo, com retorno para casa, mas nunca mais ao estado mental anterior.

Podendo escolher outros caminhos para fazer caridade, é impressionante ver alguém nascida em Belém do Pará, com traços e cor indígena em seus 148 cm e 64 anos, após passar por Montes Claros, novamente atravessar o Oceano Atlântico, e voltar a ser missionária na África. E pagando pessoalmente todas as suas despesas.

16 de agosto de 2017

 

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