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“É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar” (Gilberto Gil)

Publicado em 27/03/2017

Mara Narciso

A algazarra infantil é festa, mas pode ser tensão. Em alguns lugares se torna angustiante, e até mesmo explosiva. Depois de aceso o rastilho de pólvora, apenas tendo maior agilidade que o fogo para poder apagá-la. Correr, acelerar, antecipar-se a todos os gestos de uma criança arisca, elétrica, agitada, um avião cujo motor se encontra em constante carga máxima, prestes a decolar. E muitas vezes decola.

A situação ocorre na sala de espera de um consultório médico, e a demora para a consulta se alonga. Durante muitos minutos pode-se ouvir o alarido da criança e o corre-corre da mãe, aflita, segurando, contornando, acalmando, distraindo, negociando, colocando no colo, e o bólido escapulindo, uma vez depois da outra.

A rejeição das pessoas é tão natural quanto fazer calor no verão.  A divisão da tarefa é desigual, mas o pai entra no jogo, vai atrás, pega pela mão, coloca no colo, para em seguida a criança escorregar por entre suas pernas e fugir.

Todo o ambiente fica em estado de perturbação, e o objeto do desassossego é visto com antipatia. De lá de dentro, minha expectativa cresce, pois, sem ver nada, além do barulho, já adivinho todos os movimentos.

Então, a porta se abre, e a família entra em cena: o pai, a mãe e a criança, que mal vejo, pois passa como um raio até o fundo da sala, para mexer no ar-condicionado portátil. A mãe tira a mão dele de dentro da máquina. É um menino. O pai vem se consultar. A conversa começa, sendo interrompida muitas vezes. Para que não se perca mais tempo, disfarço, finjo que nada percebo, faço de conta que não vejo a confusão instalada, que impossibilita qualquer organização de pensamento. Para quê acrescentar mais interrupções às muitas que já estão acontecendo?

Feitas as queixas e esclarecimentos, durante os quais ouvi várias vezes a criança ter seu nome chamado, e ser seguido por ações como busca de cá, agarra de lá, pula do colo da mãe para o colo do pai numa situação repetitiva, naquele instante, do canto do olho, vejo que está com a mãe. O menino se mexe como minhoca para escapar dos braços dela, que, aparentando calma, com voz suave, tenta controlar o filho.

Ele escapa e vai até a mesa de exame, pegando uma lupa dentro da gaveta. A mãe ralha, mas eu deixo, só não garanti se ele veria alguma coisa, pois a lupa estava arranhada. Correndo com o objeto, já está do outro lado da sala. É quando fixo meus olhos pela primeira vez no rosto do menino. Sabedora do nome, mas, como modo de conversa, pergunto como ele se chama, e ao ouvir a resposta, falo: mas esse Heitor sabe ser bonito! O menino para e sorri, olhando para mim. A minha irritabilidade some e uma onda de paz desce sobre o grupo. Ocorre uma transformação deflagrada pelo meu gesto de boa vontade e acolhimento. O que era transtorno passa a ser uma energia boa. A compreensão sobre o que era e o que se tornou, vem de dentro de mim. A inquietude exagerada, a hipercinesia perturbadora e sem sentido passa a ser a agitação de uma criança alegre, sorridente, precisando de atenção, coisa que tem em tempo integral, para não se acidentar.

Aos dois anos e sete meses, pouco mais do que um neném, no colo da mãe, pede uma caneta e quer escrever nas costas dos exames do pai. Rabisca algumas garatujas. Soube que já está na escolinha, e só consegue parar quando brinca com o celular. Segura a caneta com a mão esquerda, como eu (que sofro de tendinite há anos e mal consigo escrever), assim como o meu filho Fernando, também canhoto, que entra na sala, ao final, para anotar os pedidos de exames para mim. Ele próprio, um hiperativo diagnosticado aos quatro anos e tratado desde os dois, mal vê a criança, fala: que gracinha! Um menino hiperativo e carismático!

O ciclo se fecha, para alívio dos pais.

26 de março de 2017

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