Jornal Oportunidades
  O seu portal de bons negócios!  
  Terça-feira, 25/09/2018  
  Incluir Classificado  
  Quem somos  
  Fale com o editor  

 

Tempos antigos, costumes perdidos.

Publicado em 17/09/2018

 

Tarcísio Henriques Filho
(o autor é Procurador da República em
Belo Horizonte, mas gosta de ser lembrado
por sua amizade com o editor deste periódico eletrônico).

Peço licença, necessária, para transcrever aqui uma mensagem que recebi de um amigo distante, afastado, mas que anda sempre presente em meus pensamentos: Antônio Carlos dos Anjos.
Faço isto por dois motivos: o texto vale a transcrição pela propriedade com que aborda o tema a que se propõe a desenvolver (o inevitável passar do tempo) e depois, mesmo que não fosse pela qualidade do texto, o dos Anjos merece minhas homenagens, pela saudade que sua ausência me provoca e pela vontade constante que tenho de conversar com ele.
Aliás, depois de ler, quero ver a tua reação, meu caro leitor, ao que o texto nos trás.
Aí vai:

O TEMPO PASSOU E AGORA????

Sou do tempo que andava de calção o tempo todo,
corria por entre assa peixes, malvas, ás vezes queimado na urtiga
mas andava somente de calção, era o que tinha, era o que tinha.

Lembro-me das noites de lua rodeados pelos irmãos mais velhos
ladeados por papai e mãeinha escutando histórias, e escutando histórias
Papai ordena apagar o candeeiro pra ver melhor o ceu e ouvir os causos,
ora de caçada de tatu, outrora de caçada de perdiz, no intento de mostrar
a importância da bravura a ser seguida pelos filhos ali ouvintes.

Lembro-me do papai ordenando mãeinha dá banho nos meninos porque hoje toda a família iria fazer uma visita ao cumpadre. Caprichem no banho mulecada.
Íamos todos juntos estrada a fora, a pé, geralmente na boca da noite pra de noite.

O cumpadre nem era avisado, o costume era esse, era chegar sem avisar.
E a alegria tomava conta da casa para receber os visitantes. Aos poucos,
as saudações se iniciavam, uma atrás da outra.

“Olha o cumpadre aqui, menino! Cumprimenta a cumadre, pede a bença… bença? Deus te abençoe meu filho”. Aí chegava outro menino.
Ô cumadre, quanto tempo?  Repetia todo o cerimonial.

“Mas vamos assentando, gente. Que surpresa agradável cumpadre!”

A conversa se passava por toda a sala. Meu pai conversando com o cumpadre e minha mãe numa boa proza com a cumadre. Eu e o meus irmãos ficávamos todos sentados no mesmo banco, igualzinho um bando de andorinhas pousado no fio, entreolhando uns aos outros e olhando todos os detalhes da casa do cumpadre.
Corríamos os olhos nos retratos na parede, algumas imagens do santíssimo no encontro das paredes, perfumadas por uma solitária flor de lírio. Os quartos não tinham portas, eram cortinados por pedaços de pano colorido estendido numa riata, que ao bel prazer do vento deixava aparecer as guarnições sobre as camas, lenções coloridos, travesseiros...olha só aqui tem travesseiro...que conforto...

Essas visitas eram assim, singelas e muito acolhedoras. Tão prazerosas que era costume servir um café aos visitantes. Com um encantamento sublime, surgia uma filha lá da cozinha...

“Pessoal, vem aqui pra dentro que o café tá na mesa.”

O café, eis que: Pães, bolos, broas de canjica, um queijinho fresco, leite com uma nata gorda toda vida, biscoito xiringa, ….tudo posto à mesa. Que banquete! assim, sem avisar, sem preparação. Ali, juntavam todo mundo e começaram a “pleriar”.
As gargalhadas estavam à solta...
A vida estava presente naquela mesa, nas gargalhadas, nos sorrisos, nos abraços,.. era a verdadeira vida, sendo vidamente vivida com a esperança de eternidade...era a vida nos enchendo de simplicidade, amizade sincera, e muita,  muita alegria.

Na despedida, os cumpadres e os meninos ficam estáticos à porta até que virássemos a curva mais próxima
Até ali ainda acenávamos em agradecimento. A volta era uma caminhada longa  noite a dentro, sem carro, sem cavalo, a pé pela estra poeirenta mas com o coração enriquecido pela ternura e recepção. E assim era lá em casa também, os corações se abriam para as visitas inesperadas....a mesma sinceridade se repetia... e quando iam embora, ficávamos estatalados até o último suspiro da estrada de terra, que logo sumia na escuridão.

O tempo passou, e estou aqui quase um doutor em silêncio, acho que estou me formando em saudades… pois não se recebe mais em casa. Agora só existe combinações de encontros ao som, sei lá de quê...e de quem… geralmente é um encontro fora de casa, num buteco...ninguém quer entrar mais... é careta... é pagar mico.
As casa estão trancadas... é perigoso... tranca logo e entra pra dentro,  podemos sofrer de assalto e levarem o café, os bolos, os pães, as broas, o queijinho fresco...
…..
Saudades eternas dos cumpadres e dos meninos.

Antônio dos Anjos
13/09/2018

Vale ou não vale a leitura?
Bons tempos….
 

Entre em contato   Recomende   Imprimir


Colunas Anteriores

12/09/2018 - Pacóvio

10/09/2018 - Pacova

27/08/2018 - Pachola

22/08/2018 - Oxiopia

20/08/2018 - Óveo

Veja mais...